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Papa Francisco, em entrevista: ‘É preciso escutar os jovens e cuidar para que não sejam manipulados”

Papa Francisco durante entrevista. Foto: Reprodução de TVDurante os dias em que esteve no Brasil para a Jornada Mundial da Juventude, o Papa Francisco concedeu entrevista exclusiva à “Globonews”. O pontífice falou sobre os escândalos no Vaticano, os protestos dos jovens no Brasil, a relação entre religiões, rivalidade entre Brasil e Argentina, entre outros assuntos. Confira alguns pontos da entrevista:

Simplicidade:

“O carro que uso aqui (no Brasil) é muito parecido com o que uso em Roma. Temos que dar testemunho de certa simplicidade. Nosso povo exige pobreza de nossos sacerdotes. Não é bom exemplo que sacerdote tenha último modelo (de carro). É necessário que o padre tenha um carro, porque na paróquia, tem que mover-se, mas tem que ser automóvel modesto.”

Escolha pela casa de Santa Marta para morar:

“O apartamento papal é grande, mas não é luxuoso. A decisão pela casa Santa Marta é porque não consigo viver só. Preciso de contato com as pessoas. Fiquei em Santa Marta por razões psiquiátricas, para não sofrer de solidão. Em Santa Marta vivem uns 40 bispos e sacerdotes, tem 130 cômodos. Eu como no refeitório de todos. Sempre encontro pessoas diferentes e isso me agrada. Acredito que Deus nós pede maior simplicidade, uma vida mais simples, mais pobre.”

Segurança e proximidade com o povo nas ruas:

“Eu não sinto medo. Sei que ninguém morre de véspera. Quando acontecer, o que Deus permitir, será. Eu não poderia vir ver este povo, que tem um coração tão grande, detrás de uma caixa de vidro. As duas seguranças (do Vaticano e do Brasil) trabalharam muito bem. Mas ambas sabem que sou um indisciplinado nesse aspecto.”

Perda de católicos:

“Não conheço as causas, nem as porcentagens. A Igreja é mãe, e você nem eu conhecemos mãe por correspondência. Quando a Igreja, ocupada em mil coisas, se descuida da proximidade, é como uma mãe que se comunica com filho por carta. Falta de proximidade de sacerdotes. As pessoas buscam, sentem necessidade de um evangelho. Falta de proximidade é uma das pautas pastorais da Igreja.”

Cúria romana e escândalos:

“A Cúria romana sempre foi criticada. Como tem que resolver muitas coisas, alguns trâmites estão bem direcionados, outros estão mal enfocados, mal direcionados. Como em toda organização. Eu diria isto: na Cúria romana, há muitos santos. Cardeais santos, bispos santos, sacerdotes, religiosos, leigos santos. Gente de Deus, que ama a Igreja. Isso não aparece. Faz mais barulho uma árvore que cai do que um bosque que cresce. Ouvem-se os ruídos dos escândalos. Agora mesmo, temos um. Escândalo de transferência de 10 ou 20 milhões de dólares de um monsenhor. Belo favor faz esse senhor à Igreja, não é? Mas é preciso reconhecer que ele agiu mal e a Igreja tem que dar a ele a punição que merece. Agiu mal.”

Protestos de jovens brasileiros nas ruas:

“Primeiro ponto: não conheço os motivos dos protestos dos jovens. Não sei bem por que protestam. Segundo ponto: um jovem que não protesta não me agrada, porque jovem tem a ilusão da utopia. E utopia é respirar e olhar adiante. O jovem tem menos experiência e às vezes experiência nos freia. O jovem é essencialmente um inconformado e isso é muito lindo. É preciso escutar os jovens e cuidar para que não sejam manipulados. O caminho é ouvir-los.”

Jovens, idosos e dinheiro:

“O mundo atual tinha caído na feroz idolatria do dinheiro. Há uma política mundial muito impregnada pelo prontagonismo do dinheiro. Quem manda hoje é o dinheiro, uma política economicista sem qualquer controle ético. Quando reina no mundo a idolatria do dinheiro, as pontas da sociedade são mal sucedidas, descuidadas e descartadas. Vimos como se descartam os idosos. Não servem, não produzem. Os jovens também não produzem muito. O alto percentual de desemprego entre jovens na Europa é alarmante. Vemos um fenômeno de jovens descartados. Para sustentar esse modelo político mundial, descartamos os extremos. Os jovens que são o futuro. Os idosos precisam transferir o conhecimento. Hoje em dia há crianças que morrem de fome, há doentes que não tem acesso à saúde, há pessoas morrendo de frio nas ruas, há crianças que não têm educação. Isso tudo não é notícia. Basta as bolsas (de valores) caírem que é catástrofe mundial. Quero recuperar os extremos. Os extremos são o futuro de um povo.”

Mensagem para brasileiros católicos e de outras religiões:

“É preciso estimular a cultura de encontro em todo o mundo, de modo que cada um sinta necessidade de dar à humanidade valores éticos e defender uma realidade humana. Nesse aspecto, creio que é importante que todos trabalhem pelos outros, reduzindo o egoísmo, um trabalho para os outros, segundo valores de cada fé. Trabalhar pelos demais, segundo valores da fé de cada um. Se há uma criança com fome e sem educação, o que importa é que eduquem. Não podemos brigar entre nós à custa do sofrimento dos outros. Sobretudo hoje em dia, urge a proximidade, a saída de si mesmo para solucionar os problemas. As diversas religiões não podem dormir tranquilas com uma só criança morrendo de fome, uma só criança sem educação. Não vai adiantar nada falar das teologias se não temos proximidade de sair e ajudar os demais”.

Brasil x Argentina:

“O povo brasileiro tem um grande coração. Quanto à rivalidade, creio que já está totalmente superada. Porque negociamos bem: o Papa é argentino e Deus é brasileiro.”


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