Bahia envelhece e cresce número de pessoas morando sozinhas

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18 de abril de 2026
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Foto: Romildo de Jesus


Hieros Vasconcelos

A Bahia vive uma mudança demográfica profunda, silenciosa e com impactos diretos na economia, nas relações familiares e nas políticas públicas. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística divulgados na última sexta-feira (17) mostram que o estado passou a ter a segunda maior proporção de lares unipessoais do Brasil, com 22,3% dos domicílios ocupados por apenas uma pessoa. Em números absolutos, são 1,263 milhão de residências onde mora só um indivíduo, crescimento de 15,2% em apenas um ano, o equivalente a mais 167 mil novos moradores vivendo sozinhos.

Mais do que um dado habitacional, o indicador revela que a estrutura tradicional das famílias baianas está mudando. Casas cheias, com várias gerações sob o mesmo teto, passam a dividir espaço com um número crescente de imóveis ocupados por apenas uma pessoa. Essa transformação é puxada principalmente pelo envelhecimento da população, pelo aumento da longevidade, pela redução do número de filhos, por separações conjugais e por novos modos de vida marcados por maior autonomia individual.

Conforme o próprio instituto, “metade das pessoas que passaram a morar sozinhas na Bahia, entre 2024 e 2025, eram idosas”. Foram 82 mil idosos a mais vivendo sós em apenas um ano, dentro de um total de 167 mil novos moradores solitários. O dado expõe uma nova realidade social: envelhecer sozinho já deixou de ser exceção no estado.

Ao mesmo tempo, a Bahia segue crescendo pouco. Em 2025, o estado alcançou 14,850 milhões de habitantes, mantendo-se como a quarta maior população do Brasil, atrás apenas de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro. Ainda segundo o IBGE, o crescimento frente a 2024 foi de apenas 0,1%, ou mais 21 mil pessoas, o quinto menor índice do país.

Enquanto a população total avança lentamente, a idosa cresce em ritmo acelerado. De acordo com o levantamento, “o contingente de pessoas de 60 anos ou mais é o que mais aumenta, na Bahia”. Em apenas um ano, esse grupo cresceu 7,2%, chegando a 2,464 milhões de pessoas, o equivalente a 16,6% da população baiana. Pela primeira vez, a participação dos idosos na Bahia igualou a média nacional.

Especialistas apontam que o envelhecimento associado ao aumento de pessoas morando sozinhas pressiona áreas estratégicas como saúde, assistência social e mobilidade urbana. Cresce a demanda por atenção básica, atendimento domiciliar, combate à solidão, centros de convivência e políticas específicas para idosos sem rede familiar próxima.

Além disso, cidades como Salvador precisarão adaptar moradia, transporte e urbanismo a uma população mais velha e mais solitária.

Com quase 15 milhões de habitantes e crescimento populacional em desaceleração, o estado vê surgir uma nova paisagem social: um número crescente de portas que, ao se abrirem, revelam apenas um morador — e uma série de desafios que batem junto com elas.

Salvador sente mudança de forma mais intensa

Em Salvador, onde o custo de vida é maior, os imóveis vêm encolhendo e a população envelhece em vários bairros tradicionais, especialistas avaliam que essa mudança já aparece de forma clara. Cresce o número de idosos viúvos vivendo sozinhos, adultos separados, jovens que adiam casamento e pessoas que optam por morar sem companhia.

Para a socióloga Ana Paula Barreto, o fenômeno exige leitura mais ampla.  “Durante muito tempo, a imagem da família numerosa marcou a Bahia. Hoje temos uma sociedade mais urbana, com mulheres mais inseridas no mercado de trabalho, menos filhos e vínculos familiares reorganizados. Morar sozinho passou a ser também uma expressão dessa nova sociedade”, diz.

Ela alerta, porém, que nem sempre essa condição significa liberdade plena. “Entre jovens, pode representar autonomia. Entre idosos, muitas vezes significa solidão, isolamento e necessidade de cuidado. É um fenômeno que precisa ser analisado sem romantização.

Mercado imobiliário – O crescimento dos lares unipessoais já altera o mercado. O avanço revela mais do que casas vazias de familiares. Mostra uma Bahia em transição: mais urbana, mais envelhecida, com famílias menores e novos arranjos afetivos e econômicos.

Com quase 15 milhões de habitantes e crescimento populacional em desaceleração, o estado vê surgir uma nova paisagem social: um número crescente de portas que, ao se abrirem, revelam apenas um morador — e uma série de desafios que batem junto com elas.

Segundo especialistas, aumenta a procura por apartamentos menores, condomínios com serviços, aluguel individual, imóveis próximos a transporte público e bairros com comércio de proximidade.

O economista Ricardo Menezes afirma que o padrão de consumo também muda.“Uma pessoa sozinha compra menos volume, mas consome mais conveniência. Crescem delivery, refeições prontas, embalagens menores, lavanderias, farmácias e serviços domésticos.”

Os dados do IBGE reforçam essa transição. Entre 2016 e 2025, o número de pessoas vivendo em imóveis alugados na Bahia cresceu 39,7%, chegando a 2,391 milhões, ou 16,1% da população.

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